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RIO DE JANEIRO

15 de mar. de 2018

RIO DE JANEIRO

15 de mar. de 2018



Ô meu Rio de Janeiro,

Eu te amo muito, mas tá cada vez mais difícil gostar de ti. Foi-se o tempo o qual dava pra bater no peito e se orgulhar de sua beleza inconfundível, repleta de verde e azul. Antigamente, só as suas lagoas e morros já eram o suficiente para por um sorriso no meu rosto – seu povo, caloroso e desencanado, bastava para fazer com que eu comprasse a primeira passagem de volta para casa.

Ô meu Rio de Janeiro,

Infelizmente, andam abusando de você e o orgulho que eu tanto sentia, não tá me bastando mais. Hoje, sua cor é vermelha. Vermelha como o sangue que escorre dentro do carro branco na Rua do Matoso, na Praça da Bandeira; como o de milhares de pessoas vítimas de seus assassinatos diários; como o daquelas que não resistem ao tiro da bala de fuzil do policial e do bandido.

Ô meu Rio de Janeiro,

Me sinto saudosa dos tempos em que idealizava você. "Cidade maravilhosa, coração do meu Brasil" – não é assim que diz aquela música? Pois é, mas como podemos chamar de maravilhosa a cidade que mata diariamente dezenas de pessoas? Que executa ativistas negras que representam a luz e a esperança no meio de um cenário de caos político? Que manda seus filhos para uma guerra diária, o qual nenhum lado nunca ganha?

Ô meu Rio de Janeiro,

Comprei uma passagem de ida para longe. A esperança que um dia tive, já não consegue se sustentar mais. Continuarei sendo tua filha de alma, mesmo que o corpo não estejas mais aí. Espero que não sofras do mesmo fim da Marielle, das Marias, dos Joãos, dos Pedros, das Lucianas, e das centenas de pessoas que morrem diariamente em suas terras.

Ô meu Rio de Janeiro,

Eu te amo muito, mas infelizmente já não gosto mais de ti.

A HANNAH BAKER EM MIM

6 de abr. de 2017

A HANNAH BAKER EM MIM

6 de abr. de 2017



Ontem a noite eu terminei de ver "13 Reasons Why", a série nova do Netflix que tá todo mundo comentando, e chorei que nem uma criança. A série conta a história de uma adolescente de 17 anos que se suicidou e o que a levou a cometer esse ato. Isso pode não ser novidade para quem me conhece e sabe que eu sou uma manteiga derretida (principalmente quando estou na TPM, como agora rs), mas a verdade é que não foi só o final que me deixou arrasada.

Eu já fui uma Hannah Baker.

SÍNDROME DO ESCRITOR

1 de nov. de 2015

SÍNDROME DO ESCRITOR

1 de nov. de 2015

Eu escuto mil vozes dentro da minha cabeça.

Eu não sou louca — pelo menos, eu acho que não. Eu gosto de pensar que eu sofro da síndrome do escritor. Eu não pesquisei isso na internet, então não sei se isso existe de verdade. Na verdade, "criei" essa síndrome durante o banho, enquanto dava espaço para mais uma dessa vozes tomar conta de mim e reproduzir diálogos imagináveis enquanto a água caía sobre minha pele.

Para mim, a síndrome do escritor é quando o escritor se vê obrigado a lidar com essas vozes na cabeça dele; esses personagens. São vários personagens que ficam se atropelando, querendo ter as vozes deles escutadas de qualquer jeito. Aí o escritor, coitado, se vê obrigado a sentar por horas na frente do computador e tentar passar para um documento do Word tudo que o personagem está disposto a contar: todos os diálogos, todas as aventuras as quais ele passou, todos os romances... Tudo isso para, no final do dia, ver se essa voz dá algum descanso para ele.

Isso acontece frequentemente comigo. É por causa dessas vozes que ficam se atropelando que eu nunca consigo terminar uma história. Elas falam, falam, falam e, de repente, se calam. Somem por algumas horas ou alguns dias. As vezes, nunca mais voltam. De repente, quando você menos esperar, uma outra voz vai surgir querendo contar a história dela. Foi assim com a Loiane, com a Magda, com a Rosie e com uma outra personagem cuja sumiço tem tanto tempo que eu nem lembro mais o nome dela.

Eu não sou louca, eu apenas tenho uma imaginação fértil demais para o meu próprio bem. 

A CULPA TAMBÉM FOI MINHA

27 de out. de 2015

A CULPA TAMBÉM FOI MINHA

27 de out. de 2015

A culpa também foi minha.

Eu poderia ter te segurado pelo braço; te impedido de ir embora; ter lutado mais pela gente. Eu poderia ter me dedicado mais a você; ter te escutado mais; ter sido mais presente; ter escolhido você. Eu poderia estar ainda ao seu lado, se não tivesse sido tão orgulhosa.

Eu poderia ter feito mil coisas diferentes do que ter apenas te culpado.

Eu te culpei por todas as vezes que eu queria chorar e você não estava por perto. Te culpei por todas as vezes em que marcamos algo e você cancelou. Te culpei por todas as desculpas esfarrapadas que você me deu. Te culpei todas as vezes que você falhou em ver o quão triste eu estava, quando eu te dizia que estava "tudo bem".

Não, não estava tudo bem. Ainda não está.

Eu sinto falta da nossa inocência; de como tudo era mais fácil quando estávamos no colégio; de quando morávamos perto; dos depoimentos no Orkut falando de coisas impossíveis, tipo "pra sempre".

O nosso pra sempre foi apenas um ano; um mês; um dia; um segundo.

Mas a culpa também foi minha.

4 MESES LONGE DE VOCÊ

5 de out. de 2014

4 MESES LONGE DE VOCÊ

5 de out. de 2014


A gente sente saudades das coisas mais ridículas.

Eu, por exemplo, sinto saudades do seu cheiro. Dizem que o olfato é um dos sentidos mais poderosos, porque faz com que a gente sempre lembre de uma situação ou de uma pessoa, baseada inteiramente no cheiro. Podemos esquecer como é o toque daquela pessoa, como é o gosto dos lábios dele na nossa boca, ou até do rosto dele. Mas nunca esquecemos o cheiro. E o seu cheiro é só seu. Não sei como explicar. É algo que eu amo e que ficou impregnado naquela sua camisa que eu trouxe comigo até ela ficar suja e eu ter que lavar-la. 

Também tenho saudades de quando a gente não fazia absolutamente nada. Isso é frustrante, porque eu reclamava muito disso. Todas as minhas amigas saindo nos finais de semana, altas festas rolando e você se recusando a sair de casa. "Amor, que mané sair. Vamos ver um filme". Eu reclamava, dizia que ia sair de qualquer jeito, mas no final eu sempre dava o braço a torcer e a gente ficava na sua casa, deitados ou na sua cama ou no seu sofá, vendo algum filme que você baixou ilegalmente depois deu tanto pedir. Eu sinto saudades dessa certeza que no final do dia, a gente não vai fazer nada e que, no final, vai estar tudo bem assim mesmo.

Sinto saudades de comer pizza da Parmê com você e depois reclamar do quanto eu estou gorda.

Sinto saudades de botar o meu nariz na sua covinha. Isso é idiota, mas é uma coisa tão nossa que não tem nem como eu não sentir falta. Que nem quando a gente fala que você precisa treinar o seu inglês, prometemos que só iremos nos falar em inglês de ali em diante e, no dia seguinte, já voltamos a falar em português de novo. Saudades dessas nossas contradições.

Contradições essas que, aliás, fazem a gente ser tão diferente. Você, que é todo realista e pé no chão. Que fica me dizendo "Amor, não é assim...", que as vezes não tem paciência para as minhas infantilidades (e olha que são muitas), que nunca entende os meus textos da maneira que eu quero e que fala que eu tenho que ler livros sérios. Saudades de falar "Aff" e ficar discordando de você.

Saudades de acordar de manhã e ver você, deitado ali na cama de baixo, com a boca fechada e seu cabelo de índio no rosto. Saudades de ficar te admirando por uns segundos, quietinha, até ficar entediada, pegar meu celular e começar a jogar. Até começar a ficar com fome (e mais entediada ainda) e ser obrigada a te acordar. Saudades de escutar você reclamar, pedir mais 5 minutos e fazer sinal para eu poder descer e ficar deitada com você.

Enfim, a gente saudades das coisas mais ridículas.
Mas a coisa mais ridícula que eu sinto falta, é de você.

2 de out. de 2014

2 de out. de 2014

Ela queria ir além. 

De segunda a sexta-feira ela passava sete horas do seu dia na faculdade de direito, algo que ela nunca quis. O resto do tempo ela passava trabalhando numa firma, no centro da cidade, vendo casos de clientes em que ela não acreditava e sendo assediada por um chefe que odiava.

Ela queria ir além.

Aos sábados e domingos, ficava acordada até tarde estudando a constituição. Quando saía, era com os falsos amigos que tinha. Ía para os lugares que eles queriam. Bebia até não se lembrar mais que sua suposta melhor amiga dava em cima do namorado dela, e que ele correspondia isso. Bebia até se esquecer que, quando saíssem da festa, seu namorado ia querer dormir com ela, a chamaria de um nome qualquer e ela fingiria que não ligaria para isso. Bebia até esquecer que ela, de fato, não se chamava "Belinha".

Ela queria ir além.

Era rica. Vinha de uma família de nome. A mãe era uma socialite e o pai um desembargador. Sempre teve tudo do bom e do melhor, mas mesmo assim ainda se sentia constantemente vazia. Estava constantemente cercada de pessoas que só queriam estar com ela pelo status. Não tinha ninguém que gostasse dela por ela. Algumas noites, chorava sozinha em seu imenso quarto branco. Chorava pela vida que poderia ter.

Ela queria ir além.

Um belo dia, ela acordou. Foi para a faculdade numa segunda-feira e nunca mais voltou. Trancou a matrícula. Pegou o dinheiro que tinha na conta do banco e comprou uma passagem de ida para Nova York. Cortou os longos cabelos loiros que tinha e tingiu eles de preto. Deixou o bronzeado ir embora. Conseguiu um emprego em uma lanchonete e um quarto no Brooklyn. Não tinha mais motorista particular; pelo contrário, agora ela ia para todos os lugares de bicicleta. Conheceu pessoas novas. Se apaixonou de verdade por alguém que não sabia quem ela era. Criou um novo nome, virou uma nova pessoa e deixou tudo para trás. Os pais ficaram loucos e a deserdaram. Ela não ligou. Estava morando em um quarto, tinha um gato laranja que se chamava Félix, um namorado mexicano, estava ilegal no país... mas pela primeira vez ela estava feliz.

Ela foi além.

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